Carolina me pediu uma pausa na história – ela cutuca com os dedos e faz um sinal com a cabeça, como se tivesse combinado algo- Desculpa, mudou temporariamente de nome, chama-se Ana Clara. Clara, devido à
transparência dos seus sentimentos e pensamentos naqueles dias (-e Ana...-)-diz de olhos fechados, interrompendo a frase com uma lembrança-
Ana Clara me pediu uma pausa na história, já havia escrito o próximo capitulo, mas insistiu para que eu colocasse esse no meio, então o chamaremos de "12ºandar e meio".
Esse capitulo é atual. Conta a historia de um pássaro, que dizia voar muito e por isso não quis ficar em um jardim. O protagonista desse conto, usava uma pulseira de flores, na pata esquerda, na tentativa de esconder as marcas da corrente que usava. Ele pensava que assim ninguém perceberia o quanto aquilo o machucava. Colocava as correntes todas segundas, e só tirava para respirar um pouco. Então, todos os domingos visitava a moça, às vezes voavam por ai, as vezes ficavam só tomando uma lua mesmo. Essas visitas só tomavam sol dentro de casa, e na rua tomavam lua. Uma vez, ela depois de revirar nos lençóis, dormiu... e em dois palitos acordou ao som do seu canto vindo da janela, era ele fazendo sem saber, uma serenata. Ela desligou dizendo: saudade também.
Tão enigmático, querendo dizer tudo com a situação, mas na poesia... raras palavras. Era isso que encantava, ele era mais do que pensava!
Visitaram salas de insinuantes desejos, quartos de chuvas doces e
injetaram adrenalina com paixão.
Lembra com detalhes o sorriso passarinho dele. ( -Como é lindo-). Se atreveu em dizer: é feito aguardente que não sacia, e que mesmo sendo errados os seus amores serão bons. Tem uma lânguida face, e mãos que viciam.
Os cabelos da moça cresceram, impedindo assim que alguns fios se soltassem do monte que estava preso, coisa que ele gostava...Isso a fez perceber o tempo que passou. E a corrente ainda gelava aquela pata!
A moça vira para ele e entrega a chave da sala quente. Ele pergunta: O que é isso? Ela responde: Fica! não vou mais abrir aquela porta. Abra você. Pode ser que eu mude a fechadura, mas por enquanto é sua.
Ele em um golpe certeiro corta a maçã ao meio com uma faca bem afiada, vira o corpo para ela e diz: Ta bom!
Ouvindo seu rosto indiferente, sentiu como se ele, com a faca, cortasse seu coração, a alma do seu corpo. Fazendo assim seus dois pulmões pararem com suas funções simultaneamente, sufocando-a. Num golpe de ar, tenta entender e arrancar daquele tão amado o perfeito sorriso quadrado riscado do lado direito. O pássaro a abraça, sussurra palavras carinhosas em seu pescoço, palavras que ela se confortava em ouvir, e diz: Vai lá!
Ela vai, mas espera ouvir o barulho de suas asas para apagar a luz. Quando percebe o som da partida, sussurra para ele: Quando visitar aquela praia, feche os olhos e lembre de mim, já que não estarei com a sua mão. Mas ele já era só um pontinho no céu.
Dizem que essa moça as vezes perde o sono e sai correndo até o lugar da partida. E lá, dança, ri, fecha os olhos de tão à flor da pele, e grita também. A moça grita: Eu quero tanto! Eu quero tanto! E no 3º “eu quero tanto” uma lágrima cai, vezes por dentro, vezes por fora, com gosto de saudade e dor.
Ficou uma astromélia na janela.
(-Ana Clara vontade dá e passa!)- disse engrossando a voz, imitando o pai.
(-E se escolhemos a vontade, ela passa?).
Terra, terra que parece fogo.
Um comentário:
que lindo, carol! parabéns, vc escreve muito bem.
obrigado pelo comentário lá no meu blog. não é tanta amargura não, é mais sarcasmo, eu não consigo evitar. hehe
beijo!
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